DIGRESSÕES DE INVERNO
edição número 64 - newsletter Buteco do Edu
A edição da newsletter que você acaba de receber é a sexagésima quarta dirigida aos assinantes da Buteco do Edu, sendo que os assinantes que pagam pela assinatura têm acesso integral ao conteúdo - e se você ainda não se decidiu por assiná-la pagando por isso, peço que considere fazê-lo por incontáveis razões que vão desde o gesto de prestigiar o autor, até o valor irrisório da assinatura. É só clicar aqui ou no link no final desta edição. O valor, repito, é irrisório, e a demonstração de prestígio não tem preço que pague.
UMA ILHA, CADA VEZ MAIS UMA ILHA
Tem sido interessante a caminhada que me fez chegar até aqui, 57 anos, 1 mês e 28 dias até o momento (e contando, eu gostaria de ainda contar por muito tempo). Tem sido interessante, e a presença do Leonel torna tudo muito mais interessante na medida em que sou obrigado a me manter atualizado para que ele não enxergue em mim a múmia que eu sou - assim como namorar um cara 17 anos mais novo, mas isso é assunto para outro dia (quando inclusive quero lhes contar sobre as três ocasiões em que fui confundido com seu pai).
Só que chegar até aqui tendo perdido boa parte dos amigos que foram responsáveis pelas fundações que me sustentam, foi, em certa medida, doloroso. Assim como é doloroso conviver com a artrose diagnosticada em fevereiro do ano passado. Mas nada é mais doloroso - é o que quero lhes contar - do que conviver com a indigência em estado bruto que assola o mundo.
Um homem como eu, que todos os dias rega, além de suas plantas, seu jardim de preconceitos e de mágoas (é fundamental fazê-lo), vive sentindo-se cada vez mais como uma ilha cercada de indigência por todos os lados. E o sujeito que assim se sente (eu!), precisa de foco para descarregar a raiva que toda essa sorte de indigência desperta. Ainda que o foco mude com freqüência (o que é importante para que a modorra não se estabeleça), é importante não perder de vista a importância de tê-lo.
Minha mais recente obsessão são os lançamentos de livros. O que antigamente era simples (e simpaticíssimo!) tornou-se um inferno. Antigamente você ia até a livraria para dar um abraço no autor ou na autora do livro, invariavelmente fazia uma foto ao seu lado, ganhava sua dedicatória, bebia e comia uma besterinha servida no sempre medíocre serviço de bufê oferecido e voltava pra casa.
Agora, não. Agora você chega e fica sabendo que haverá uma roda de conversa entre o autor ou a autora da obra e uns dois ou três amigos (incapazes, p.ex., de uma pergunta espinhosa) que farão o papel de mediadores. Às vezes (tudo pode piorar), há leitura de trechos do livro que está sendo lançado - momento em que a assistência faz ohs e ahs fingindo embevecimento diante das performances. Daí o centro das atenções fica desfilando sua cauda de pavão enquanto um ou dois videomakers (jovens, sempre) produzem material que o pobre-diabo publicará ao longo das semanas seguintes, sempre anunciando “um novo corte”.
Não há ninguém - um amigo, um parente, um analista - capaz de dar um toque:
— Queridão, o pessoal vai lá pra comprar seu livro, não pra ouvir o que você tem a dizer. E não precisa ler nada não, cara, o pessoal lê tudo em casa depois.
Essa pessoa não existe.
Por isso, quando estive no sábado no lançamento do excelente No turbilhão da galeria, de Álvaro Costa e Silva (na foto abaixo, comigo), o festejado Marechal, fiquei emocionado.
Lá estava o bom Marechal sentado à mesa esperando a procissão dos amigos em busca de uma dedicatória - e mais nada.
Lançamento de livro como não se faz mais - até porque tenho dito: apenas Luiz Antônio Simas, e somente Luiz Antônio Simas pode fazer o que quiser no dia dos lançamentos dos seus livros, uma vez que ele é um homem que todos querem ver, ouvir, tocar, cheirar, farejar, fotografar. O resto é desfile de vaidade.
Outra de minhas obsessões recentes: os chamados prêmios de gastronomia. Todos, sem exceção, são uma farsa e um desfile organizado de egos que não cabem nos maiores caldeirões. Todos os anos, a mesma ladainha. Melhor cozinha brasileira, melhor cozinha asiática, melhor cozinha italiana, melhor cozinha portuguesa, melhor cozinha japonesa - uma categoria mais risível do que a outra. E para que caibam todos no rol dos premiados, a organização (que precisa atender aos pedidos das agências de assessoria de imprensa) aumenta a lista de categorias. Daí temos aberrações como melhor bar para ir sozinho, melhor bar para ir a dois, melhor bar com balcão, melhor bar sem balcão e outros bichos. Uma insanidade que a indigência perpetra, ano após ano.
São muitas as obsessões - que me transformam, eu sei, num chato.
Num chato de galocha, diria dona Mathilde, minha amada e saudosa bisavó.
Mas eu vou morrer atirando, como aprendi com Aldir Blanc, um de meus pilares.
Ainda que isso me custe o que me custa ser assim: um sentimento permanente de solidão, pouca gente disposta a ouvir, a imensa maioria das pessoas chafurdando no lodaçal da mediocridade que nos faz piores e mais desinteressantes a cada dia que passa.
Volto ao tema, inesgotável.
UMA DICA DE PLAYLIST
Quero indicar a vocês, meus poucos mas fiéis leitores, uma das playlists que montei no Spotify - Rio de Janeiro - que já conta com 323 seguidores, 68 músicas, 4 horas e 30 minutos de som.
Ela será permanentemente incrementada (e eu aceito sugestões que podem ser enviadas por e-mail!).
Ela está aqui.
A referida playlist deve ser ouvida no modo aleatório e, repito, está longe de estar definitivamente pronta. Assim como eu.
Até.
Podemos continuar o papo (e você pode saber mais sobre mim, nessa exposição permanente que são as ~redes sociais~) no Twitter | no Instagram | ou no YouTube
Dúvidas, sugestões, críticas? É só responder esse e-mail ou escrever para edugoldenberg@gmail.com
📩 Se você gostou do que viu aqui e ainda não assina a newsletter, inscreva-se no botão abaixo e receba por e-mail, uma vez por semana, às sextas a edição paga e aos sábados a versão gratuita, a Buteco do Edu. E se você achar que algum amigo ou alguma amiga pode se interessar pelo papo de botequim, encaminhe esse e-mail, essa newsletter, faça correr mundo esse balcão virtual, lembrando ainda que é possível dar a assinatura de presente, também clicando no assine aqui.


